Considerando esse contexto, é curioso como o passar do tempo interfere significativamente em algumas obras, principalmente quando revisitadas muito depois de seu lançamento. Por serem um produto de seu tempo, elas estão sujeitas (umas mais, outras menos) a todo contexto socioambiental e político de sua época e da época em que estão sendo apreciadas novamente.
Assistir a Depois da Vida (After Life), longa-metragem de ficção de Hirokazu Kore-eda, de 1998, em plena ascensão da inteligência artificial, é uma tarefa interessante. No filme, recém falecidos elegem e narram os momentos mais felizes de suas vidas, os mais auspiciosos, para que, em seguida, sejam devidamente reencenados em estúdios. Grande parte (senão o principal motivo) do fascínio pela IA é a sua capacidade de gerar vídeos e imagens cada vez mais fidedignos, a ponto de se tornar quase impossível diferenciar o real do fabricado. Por isso, quando, nesse contexto, se atrela uma narrativa que aborda uma tarefa tão manual e subjetiva quanto recriar as memórias queridas de alguém – e, por conseguinte, um trabalho extremamente difícil –, é escancarado para nós que a graça está justamente no fato de serem os humanos que, quase artesanalmente, tentam realizá-lo. E, por meio dele, eles se conectam com os donos das memórias e uns com os outros.
Há uma cena em que um dos falecidos narra sua memória com um avião, e o entrevistador mostra três fotos (reveladas!) de aviões diferentes para descobrir se, dentre elas, há algum que se pareça mais com o avião da lembrança. Uma IA iria agilizar esse processo e torna-lo mais preciso? Sim, talvez. Mas ela não substitui a voz curiosa de alguém perguntando se como pode melhorar algo para torna-lo mais fiel à memória, nem o sorriso de canto da pessoa ao responder sobre o detalhe das asas altas que sobem e que faz toda a diferença. O detalhe que faz brilharem os olhos de quem narra e que, talvez, passasse despercebido por quem ouve se alguma alma não o tivesse mostrado. Em 2026, com a plena ascensão da IA e dos seus subprodutos, Depois da Vida me relembra como a graça de algo ser feito por humanos está justamente no fato de ser um produto humano; e, tal qual como seu criador, não é um produto perfeito e nem rapidamente confeccionado, mas é humano. Possui um motivo para existir e é resultado de um processo, com início, meio e fim.


