Reflexões sobre a IA. Cap. 1: After Life

 

Cena do filme “After Life” (1998), de Hirokazu Kore-eda.

    Em 2026, a inteligência artificial tem dominado nossos debates em quase todas as esferas que compõem o nosso cotidiano: todas nossas dúvidas, necessidades de trabalho, urgências em agilizar processos tediosos e, consequentemente, nossa demanda de otimizar o tempo se encaixam na proposta que a IA nos oferece. O termo “necromancia digital”, inclusive, tem estado cada vez mais em alta devido à “função” da IA de nos proporcionar um – tenebroso – conforto em relação à morte de pessoas queridas. Por meio da IA, tem sido possível criar imagens e vídeos de famosos que já morreram e de pessoas que passaram por nossas vidas e que também se foram, negando a sua (antes) incontestável partida.

Considerando esse contexto, é curioso como o passar do tempo interfere significativamente em algumas obras, principalmente quando revisitadas muito depois de seu lançamento. Por serem um produto de seu tempo, elas estão sujeitas (umas mais, outras menos) a todo contexto socioambiental e político de sua época e da época em que estão sendo apreciadas novamente.

Cena do filme “After Live” (1998), de Hirokazu Kore-eda.

  Assistir a Depois da Vida (After Life), longa-metragem de ficção de Hirokazu Kore-eda, de 1998, em plena ascensão da inteligência artificial, é uma tarefa interessante. No filme, recém falecidos elegem e narram os momentos mais felizes de suas vidas, os mais auspiciosos, para que, em seguida, sejam devidamente reencenados em estúdios. Grande parte (senão o principal motivo) do fascínio pela IA é a sua capacidade de gerar vídeos e imagens cada vez mais fidedignos, a ponto de se tornar quase impossível diferenciar o real do fabricado. Por isso, quando, nesse contexto, se atrela uma narrativa que aborda uma tarefa tão manual e subjetiva quanto recriar as memórias queridas de alguém – e, por conseguinte, um trabalho extremamente difícil –, é escancarado para nós que a graça está justamente no fato de serem os humanos que, quase artesanalmente, tentam realizá-lo. E, por meio dele, eles se conectam com os donos das memórias e uns com os outros.

Cena do filme “After Live” (1998), de Hirokazu Kore-eda.
    
    E é aí que surge a empatia.

  Há uma cena em que um dos falecidos narra sua memória com um avião, e o entrevistador mostra três fotos (reveladas!) de aviões diferentes para descobrir se, dentre elas, há algum que se pareça mais com o avião da lembrança. Uma IA iria agilizar esse processo e torna-lo mais preciso? Sim, talvez. Mas ela não substitui a voz curiosa de alguém perguntando se como pode melhorar algo para torna-lo mais fiel à memória, nem o sorriso de canto da pessoa ao responder sobre o detalhe das asas altas que sobem e que faz toda a diferença. O detalhe que faz brilharem os olhos de quem narra e que, talvez, passasse despercebido por quem ouve se alguma alma não o tivesse mostrado. Em 2026, com a plena ascensão da IA e dos seus subprodutos, Depois da Vida me relembra como a graça de algo ser feito por humanos está justamente no fato de ser um produto humano; e, tal qual como seu criador, não é um produto perfeito e nem rapidamente confeccionado, mas é humano. Possui um motivo para existir e é resultado de um processo, com início, meio e fim.